A Mulher e a Matemática.
Através
dos séculos as mulheres tem sido desencorajadas de estudar
matemática. Apesar das dificuldades houve diversas que se
sobressaíram em seus campos. A nossa ciência (a informática) tem a
“sua” mulher: Lady Ada, filha do poeta Byron. Trabalhando anos a
fio com Charles Babbage, Ada escreveu o que viriam a ser os primeiros
programas de computador da história. Isso em pleno século XIX,
muito tempo antes de existir o primeiro computador. Hoje ela é
homenageada com a linguagem ADA, em uso pelo Departamento de Defesa
americano, entre outros.
Mas
o assunto aqui é Sophie German, uma francesa, matemática da pesada,
a quem se deve um importante trabalho na área da teoria de números.
Há até uma família de números primos chamados Primos de German,
na forma $2p+1$, onde $p$ também é primo. Na área da física,
German desenvolveu a teoria da elasticidade dos materiais. Sophie
nasceu em 1776, filha de um negociante, bem de vida, mas longe da
nobreza. Nessa época a matemática estava vedada às mulheres, mas
como o assunto poderia surgir em um salão social, as mulheres tinham
que ser treinadas para poder falar nisso. Surgiram assim obras que
pretendiam explicar a matemática para o “cérebro feminino”.
Teve um livro de Francesco Algaroti que explicava o trabalho de Isaac
Newton para mulheres. Como se pensava que estas estavam interessadas
apenas em romance, o livro é um diálogo entre uma mulher e seu
namorado. O homem fala dos princípios físicos enquanto a mulher
retruca com exemplos amorosos. Devia ser uma leitura chata pra xuxu.
Sophie
se encantou pela matemática ao ler em um livro a vida de Arquimedes.
Mais do que a vida, a morte de Arquimedes. Pois, já aos 70 anos,
estava Arquimedes olhando uma figura geométrica desenhada na areia
da praia, quando um soldado romano, participante das tropas que recém
haviam invadido Siracusa, quis saber o que aquele velho estava
fazendo. O velho, dirigiu-se ao soldado e fez nenhum caso da
interrupção. Deve ter dito algo assim como “Não encha o …”.
O soldado não se fez de rogado e meteu a espada na barriga de
Arquimedes, matando-o. Sophie pensou que se algo era tão absorvente
e inebriante deveria valer a pena estudá-lo. Ela começou e em breve
estava repassando os textos de Euler e Newton, escondida, antes de
dormir. Quando o pai dela descobriu, passou-lhe uma carraspana,
confiscando velas e agasalhos para que ela deixasse de estudar
matemática, onde já se viu. Sophie reagiu escondendo uma porção
de velas e enrolando-se na roupa de cama. Passava frio mas não
deixava de estudar.
Em
1794 fundou-se a École Polytechnique em Paris. Templo do saber,
existe até hoje, mas só tinha um problema. Era só para homens.
Sophie, passou a frequentar a escola incognita, vestida de homem.
Apoderou-se da identidade de um ex-aluno, Monsieur Le Blanc. A escola
não sabia que Le Blanc havia deixado Paris e continuou a imprimir
resumos e exercícios para ele. Sophie escrupulosamente fazia os
exercícios e devolvia-os à escola. A coisa deu zebra, quando o
professor supervisor do curso, Joseph Lagrange (outro grande
matemático) quis uma entrevista com Le Blanc. Como era possível que
um aluno que era muito fraco, pudesse de uma hora para outra
apresentar resultados tão maravilhosos ? O que ele teria feito para
aprender tão rápido e tão bem ? Sophie foi obrigada a revelar seu
segredo e foi um atônito mas contente Lagrange que passou a instruir
e orientar “a” nova aluna. Saindo do já conhecido, Sophie
começou a estudar áreas inexploradas. E sentiu necessidade de
recorrer a Karl Gauss (há controvérsias, mas este aqui bem pode o
maior matemático de todos os tempos). Com medo de ser rejeitada por
Gauss, quem foi que assinou as cartas ? Ele mesmo, Le Blanc.
A
correspondência entre ambos ia de vento em popa, quando durante as
guerras napoleônicas, o exército francês invadiu a Prússia.
Sophie ficou com medo que seu guru tivesse o mesmo fim de Arquimedes,
fosse morto por acaso. Falou sobre Gauss com seu amigo o general
francês Pernety, que comandava os exércitos invasores. Este,
impressionado pelo interesse de Sophie fez questão de visitar
pessoalmente Gauss, dizendo-lhe que sua vida estava salva graças a
interferência de Mademoiselle Germain. Gauss tomou um susto, quem
seria essa mulher ? Na próxima carta, o mistério se desfez: M. Le
Blanc mudou de sexo de novo. Gauss respondeu com uma carta belíssima
a Sophie reconhecendo muito o trabalho dela, “ainda mais por ser
mulher”.
Mais
para o final da vida, Gauss convenceu a Universidade de Goettingen a
oferecer um título honorífico a Sophie German. Seria algo inédito,
nunca antes uma mulher conseguira isso. Vencidas as barreiras, quando
a universidade ia homenageá-la, um câncer a levou primeiro. Como
final desta história, quando a Torre Eifel foi erguida, colocou-se
uma placa com o nome de 72 cientistas franceses cujo trabalho
permitira erguer aquele monumento. Sophie, cujo colaboração
provavelmente foi a mais importante dos 72, não estava lá.
Quase
80 anos depois, quando Madame Curie descobriu o rádio e mereceu o
prêmio Nobel, este só lhe foi atribuído desde que o fosse também
ao marido. O prêmio assim foi para o casal, e adivinhem quem foi
buscar o prêmio das mãos do rei da Noruega ? O marido. Hoje os
historiadores da ciência reconhecem que Marie Curie foi a
descobridora, o marido foi só de carona. A injustiça foi corrigida
anos mais tarde, quando Maria Curie ganhou um segundo Nobel e o
marido já havia falecido. Agora, ela é que foi buscar o prêmio.
Para terminar esta história, um ano após a morte dela, a filha
Irene Curie ganhou outro prêmio Nobel junto com o marido.
Por
Pedro Kantek
